IBICT - Inclusão Digital

Mapa de Inclusão Digital MID na Imprensa Novas janelas para o mundo
Novas janelas para o mundo Imprimir
Sex, 16 de Outubro de 2009 17:47
janelas_mundoNo final do século passado, quando a internet ainda era restrita a uma pequena parcela da população, pouco se falava de inclusão digital. O preço dos computadores era muito elevado, o acesso à rede era discado, lento e mantinha a linha do telefone ocupada. Com o tempo, foi se democratizando o serviço, os preços das máquinas diminuíram sensivelmente e a inclusão digital virou política pública. Hoje, computadores numa sala de aula ou num centro comunitário já não servem apenas como instrumentos de aulas de informática, mas sim como um portal de conhecimento, uma janela para o mundo.

Pode-se dizer que a internet é mais uma aliada na melhoria da qualidade de vida, na medida em que ela chega gratuitamente a moradores de regiões carentes, antes colocados à margem das novidades. Vale aqui a mesma regra observada com a chegada de atividades como teatro, música, dança e cursos nas comunidades carentes: o tempo que as pessoas passam navegando, seja estudando, fazendo contatos ou se divertindo, as afasta dos perigos e tentações da vida na rua e os integra, paulatinamente, à sociedade.

Em lugares onde são poucas as opções de lazer e cultura, o acesso livre à rede mundial é como um ingresso para um novo mundo de oportunidades. Alisson Magno dos Santos Silva, 15 anos de idade, morador da região central de São Paulo, estudante da rede pública, nunca teve um computador em casa. Foi num telecentro mantido pela prefeitura de São Paulo na biblioteca infantil da Praça Monteiro Lobato, na Vila Buarque, que ele encontrou seu lugar no mundo moderno. É lá que ele estuda para as provas, faz pesquisas, realiza cursos e mantém o contato, via Orkut e MSN, com seus amigos. Quando tem alguma dúvida, não pensa duas vezes antes de recorrer ao Google. "Ele quase sempre me dá a resposta", garante Alisson. "Venho aqui praticamente todos os dias e já fiz a maioria dos cursos oferecidos na bibiblioteca, como criação de sites, de html, e tudo mais relacionado à informática. Na semana que vem começo outros dois, de espanhol e pesquisa dos saberes", diz ele.

Por ser menor de 16 anos, Alisson ainda não pode trabalhar legalmente, mas utilizou o telecentro para preparar o currículo da mãe e acabou ajudando-a a conseguir um emprego. Além disso, está certo que foi graças às pesquisas realizadas no computador que conseguiu passar de ano direto em 2008. "A internet me ajuda a ter um desempenho melhor na escola. Além disso, posso fazer vários cursos que me ajudarão bastante no futuro. Quem não sabe usar o computador mal consegue arrumar um emprego."
Nas classes menos favorecidas, as facilidades da internet não interessam só aos adolescentes. Ulysses Valério da Silva, de 54 anos, conseguiu garantir um emprego frequentando um telecentro, após ficar um ano e meio desempregado. "Trabalhei durante toda a minha vida com vendas, em contato com o público, mas nunca foram empregos muito estáveis. E, atualmente, é mais complicado ainda ter estabi-lidade por causa da idade avançada, que limita muito o mercado de trabalho. Foi graças à internet que eu arranjei um trabalho num instituto de pesquisa (Datafolha)", conta ele.

Estudos apontam que, quando uma pessoa passa a ter condições de utilizar novas tecnologias, ela se torna mais apta a se inserir na sociedade. Silva teve seu primeiro contato com um computador com mais de 50 anos. Hoje, além de usar a máquina no trabalho, domina a linguagem HTML e criou um site próprio para publicar seus textos e deixar disponíveis para leitura seus livros favoritos. Curioso, ele gosta de pesquisar e fazer cursos on-line. "Se precisar trabalhar com informática, estou apto."

Em Santo André, na Grande São Paulo, três adolescentes, Jonathan Tomé, 18 anos, Renan Bulgarelli, 17, e Murilo dos Santos Beli, 20, se conheceram num laboratório pedagógico de informática, equivalente aos telecentros paulistanos, e montaram uma banda de rock. Utilizando-se da melhor maneira os sites de relacionamento e compartilhamento, travaram importantes contatos no mundo da música.

"A gente usava todos os recursos possíveis que existiam na internet: Myspace, Orkut, Bandas de Garagem, Youtube etc.", diz Renan. Com o suporte daquele local onde eles podiam ter internet de graça e ainda era um centro de convivência, os jovens agendaram shows, conheceram produtores e gravaram suas músicas. "Pra conversar com toda essa gente, só pelo MSN", explica Jonathan. Até teoria musical foi aprendida pelos roqueiros no laboratório de informática.

Na mesma escola municipal frequentada pelos três amigos, localizada perto da Favela do Cristiano, a monitora Karen Letícia Lopes da Silva, de 18 anos, passou de orientanda a orientadora no laboratório. "Era usuária dos computadores daqui. Usava para estudar para o vestibular, pesquisando provas antigas, cursos, simulados. E, claro, para entretenimento." Quando passou no vestibular, precisou de um emprego para pagar as mensalidades. Como já era craque em informática, conseguiu a vaga de monitora no mesmo lugar onde antes entrava para navegar.

A iniciativa pública e a privada
Foi no começo da década que surgiram as primeiras iniciativas de se fazer inclusão digital no Brasil. Hoje, São Paulo tem o maior plano de inclusão digital do mundo, numa mesma localidade, com cerca de um 1,5 milhão de usuários cadastrados e mais de 600 mil atendimentos por mês. Os seus 307 telecentros estão espalhados pelas localidades de menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).Na região do ABC, o programa de inclusão digital atinge 100% das escolas públicas (44 unidades), beneficiando alunos e toda a comunidade local, que também tem a oportunidade de usufruir dos computadores.

É de fundamental importância que a inclusão seja encarada como política pública. Entretanto, lado a lado com o governo, devem andar juntas a sociedade civil e a iniciativa privada. É nisso que Beatriz Tibiriçá, presidente do Conselho Deliberativo da ONG Coletivo Digital, acredita. Ela é pioneira na implantação de telecentros em São Paulo, no governo Marta Suplicy. "As experiências mais bem-sucedidas são aquelas em que você consegue unir governo, iniciativa privada e sociedade civil. O recurso inicial para comprar os equipamentos vem da iniciativa privada, enquanto a sociedade civil cede um espaço e faz a gestão do telecentro. O governo, por sua vez, atua bancando custos com monitores, desenvolvendo material didático e as políticas centrais", explica Beatriz.

Ela atua há dez anos no campo da inclusão digital e conta que, na maioria das vezes, as empresas financiam os telecentros comprando máquinas e instalando uma conexão de banda larga. Entretanto, algumas se preocupam com os resultados de integração social e vão um pouco além. "Ela cita os exemplos do banco Santander da Petrobras. " Elas não se limitaram a dar o dinheiro, mas tiveram uma atuação efetiva", explica. No caso do Santander, foi uma parceria com a Prefeitura de São Paulo durante a última gestão petista, quando a empresa espanhola "adotou" 65 telecentros. Já a experiência da Petrobras se deu nas regiões Nordeste e Norte do Brasil, onde a empresa montou 50 telecentros.

Empresas de telefonia, provedoras de serviços de banda larga, naturalmente são potenciais investidores nessa área (leia quadro pag 21). No início do programa de inclusão digital em São Paulo, o grupo Telefonica financiou os oito primeiros telecentros. Atualmente, a Fundação Telefonica, que desenvolve programas sociais, já tem seus próprios projetos. "Nosso ponto central é justamente usar a tecnologia no auxílio da conquista dos resultados de projetos, seja na melhoria da educação ou na garantia dos direitos das
crianças e adolescentes", explica Sérgio Mindlin, presidente da Fundação."Usamos as tecnologias para contribuir com a conquista dos objetivos de nossos projetos. O Aula Fundação Telefonica oferece às escolas públicas o apoio para essa introdução da tecnologia em sala de aula, por meio de doação de equipamentos e da capacitação dos professores", completa.

Outra empresa de telefonia, a Oi, também tem papel fundamental no fomento da inclusão digital no Brasil. Mantém cinco projetos, desenvolvidos pela Oi Futuro, instituto de responsabilidade social da companhia, considerados de grande êxito e colocaram a Oi em primeiro lugar entre as empresas privadas que mais atuam para promover a inclusão digital no Brasil, segundo o mapa de inclusão digital realizado pela ONG Midiateca e pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict).

"O Oi Futuro foi criado em 2001 para buscar o desenvolvimento humano e melhorar as políticas públicas por meio de projetos de educação e cultura que utilizem a tecnologia como meio", conta Samara Werner, diretora da Oi Futuro. "A inclusão digital acontece quando sabemos como utilizar a tecnologia para produzir algum conhecimento e modificar a vida das pessoas. Aí é inclusão", diz.

Passos para o futuro
A primeira fase da inclusão digital teve início no ano 2000. Agora, vivemos uma fase em que a prioridade é levar conexão de banda larga aos computadores sem internet. E qual o próximo passo? Para o sociólogo Sérgio Amadeu, um dos maiores especialistas no tema, a inclusão digital tem de enfrentar a questão da desigualdade social e da pobreza no Brasil. "Para isso, o governo deve priorizar a questão, colocando-a na pauta no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)", acredita. Para ele, o uso da internet deve permear as aulas das mais diversas disciplinas. "Qual o melhor jeito de ensinar geografia? Na rede. Inglês? Na rede. Uma coisa é ficar ensinando verbo to be. Outra é mostrar num vídeo do Youtube como um americano fala diferente do inglês", exemplifica. Samara Werner, diretora da Oi Futuro, acredita ter chegado a hora dos brasileiros produzirem mais conteúdo, em vez de apenas consumir. "Temos uma juventude imensa apta para isso. Buscamos formar jovens que possam produzir esse conhecimento", diz ela.

Fato é que a inclusão digital caminha junto com a inclusão social. E é um ciclo. Quanto mais desenvolvida a sociedade, maiores condições ela terá de integrar pessoas às novas tecnologias. E quanto maior o acesso, mais se amplia a chance de integração social. Para chegar a essa equação, de fundamental importância para um País subdesenvolvido, o caminho é um só: o investimento na educação.

Os números da inclusão digital
De acordo com o Mapa de Inclusão Digital da ONG Midiateca e do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), existem cerca de 16,72 mil telecentros ou pontos de inclusão digital (PIDs) em 3 mil municípios brasileiros. Já o número de lan houses (segundo levantamento do Comitê Gestor de Internet no Brasil) supera os 90 mil e tende a crescer ainda mais em 2009.

Em 2006, a União Internacional de Telecomunicações, órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU) que mede o acesso dos cidadãos de 180 nações à Sociedade de Informação, registrou um crescimento de 35% no Índice de Oportunidade Digital (IOD) do País, em apenas quatro anos, colocando os brasileiros em sétimo lugar nesse ranking mundial.

Empresas engajadas - Conheça alguns projetos

Santander: Adotou 65 telecentros em parceria com a Prefeitura de São Paulo, com manutenção do espaço e mão de obra e desenvolvimento do material didático.
Petrobras: Montou 50 telecentros nas regiões Nordeste e Norte do Brasil. Desenvolveu um curso de captação de recursos para que os próprios funcionários dos telecentros passassem a manter os espaços.

Oi: Por meio da Oi Futuro, braço de responsabilidade social da operadora Oi, coordena o programa Conecta, que leva, em parceria com governos estaduais e municipais, conexão gratuita a escolas públicas. A empresa tem ainda o Tonomundo, cujo principal objetivo é promover a inclusão digital onde a tecnologia praticamente inexiste. distância, dos professores, ao passo que a Oi Futuro garante os laboratórios de Mais de 600 mil já foram beneficiados em diferentes pontos do País. A empresa mantém também os programas Novos Brasis, que apoia e realiza parcerias com ONGs, além do Oi Kabum e Nave, voltados à formação ao estímulo da produção de conteúdo com suporte da tecnologia.
Telefonica: Por meio da Fundação Telefônica, a empresa atua centrada na educação e na defesa dos direitos da infância e do adolescente. Mantém três grandes projetos: o Educarede, portal destinado à integração entre alunos e professores do ensino fundamental e médio. O Pró-Menino, que dá suporte a crianças e adolescentes em situações de risco de conflito com a lei de trabalho infantil. E o Aula Fundação Telefonica, que leva infraestrutura de acesso à rede para as salas de aula.

CEF : A Caixa Econômica Federal apoia ONGs e órgãos municipais, estaduais e federais por meio de financiamento de projetos ligados à inclusão digital. De 2005 para cá, já foram doados mais de 48 mil computadores em inúmeros projetos como os de associações de quilombolas, indígenas, assentamentos rurais, comunidades carentes etc.

Referência:

CARVALHO, André. Novas janelas para o mundo. Disponível em http://www.canalrh.com.br/revista/revista_artigo. Acesso em 11 de agosto de 2009.